the conditioned - o condicionado

/ sábado, fevereiro 08, 2014 /
Esse post será bem mais do que um informativo sobre algo que está gerando assunto na web. Trata-se de um saudoso relato.


Há 6 anos atrás fui convidada a participar de um projeto social na igreja que frequentava uma família de amigos - que, inclusive, devo muitíssimo pelas diversas oportunidades de crescimento pessoal. Nunca havia participado de nada parecido, embora sempre tive muita vontade de saber como é feito um trabalho social. Isso aconteceu em meados de dezembro, quase janeiro. Era época de Natal. Fui com meu tio e esses amigos da família, e me lembro muito bem de todo o entusiasmo que sentia em participar de cada passo do processo: separar brinquedos que seriam doados à crianças que viviam na rua, preparar marmitas para distribuir às famílias, sacolas plásticas com produtos de higiene pessoal e, principalmente, boa vontade. Saímos à rua e eu mal podia para quieta, tamanha curiosidade e ansiedade. Nos dividimos em um grupos, e permaneci no carro que guiava os demais pelas ruas do centro, zona sul e oeste de São Paulo.

Corri com as crianças, abracei desconhecidos, fui abraçada, me surpreendi com o bom humor e educação de muitos (sim, muitos) moradores de rua. Tive uma poderosa e gratificante aula de humanidade. Foi vivendo aquilo que pude perceber que a minha realidade não está concentrada em viver uma rotina "padronizada". Foi ali que eu comecei a acordar, de fato.

Chegamos à zona oeste de São Paulo. Região do Alto da Lapa.
Conhecemos o verdadeiro Poeta (ou Profeta, como alguns outros também chamavam).

Seriedade e introspecção o define. Era um homem de poucas e boas palavras, realmente aparentava estar ali por muito tempo. Anos. Era engraçado mas não sorria, falava bem mas não "parecia", era poeta e todos viam. Fez um poema para cada um que se aproximava. Fui dar-lhe algo para comer e, oportunamente, perguntar seu nome e puxar assunto. Poeta, se apresentou o homem. Me fez um poema que falava sobre porcos. Eu ri, claro. Agradeci e confesso que no momento não entendi o que tudo aquilo poderia significar, talvez pela pouca idade e pelo pouco conhecimento de vida - que ali começara a ter. Vi todos à minha volta fazendo inúmeras perguntas, realmente indignados com aquela situação. Era impossível imaginar alguém tão culto e firme nas palavras estar ali, vivendo em meio ao caos da grande cidade, literalmente em meio à cidade cinza, sozinho. (Como se todos nós não estivéssemos vivendo assim, sem ao menos perceber.) Cantou, declamou e me surpreendeu, em muitos sentidos.

O Poeta não foi o único que me causou comoção, muito pelo contrário, todos ali me fizeram sentir algo diferente. 


O vídeo acima foi feito pelo Facebook, em comemoração aos 10 anos da rede social. A ideia do Tio Mark (e sua equipe) foi lançar 10 curta-documentários com incríveis histórias de conexão humana. Todas elas, é claro, auxiliadas pela rede social.

Eis que me deparo com um dos responsáveis pelo meu despertar: Raimundo Arruda, o Poeta.


Vi muitas pessoas compartilhando o vídeo, assim como fazendo comentário de quão emocionante é, mas nunca conseguiria associar a pessoa à imagem que se tornara. Após ver o vídeo e reconhecê-lo, lágrimas não só de emoção, mas de saudade. Sim, saudade. Saudade do sentimento de gratidão e paz que me habitou durante todo àquele dia em que estive correndo entre becos e "lugares de risco", procurando pessoas que não precisavam dizer que estavam precisando de ajuda, apoio, simplesmente atenção. Saudade de fazer algo mais, saudade de me sentir plenamente completa.

Confesso que o vídeo me atingiu em cheio. E no momento certo. (O que foi isso, hein Tio Mark?!) E, mais do que comoção, a história do Poeta transpassa ESPERANÇA - não só de uma vida melhor [como está sendo pra ele], mas de renascimento para todos nós.

Mesmo que não saibam, sou eternamente grata por todos os poetas que conheci aquele dia, responsáveis por provocar o despertar dos meus olhos para com esse mundo.

5 COMENTÁRIOS:

{ renatocinema } on: 8 de fevereiro de 2014 09:09 disse...

Fui voluntário anos atrás num Projeto chamado Arrastão......fiz amigos e "alunos" que são amigos até hoje. Trocar emoções é o que salvará nossa humanidade.

Estou postando seu texto e vídeo no meu face.

abraços

{ Nina } on: 8 de fevereiro de 2014 15:48 disse...

É muito bom quando a gente ajuda o próximo e vê que, direta ou indiretamente, esse auxílio teve um alcance maior para a mudança real daquele indivíduo. Quando nos unimos para melhorar a vida de alguém, só temos a acrescentar, sobretudo nesse mundo cão, onde as oportunidades são poucas e o dinheiro sempre fala mais alto, massacrando o próximo. É triste viver assim. Mas é belo e correto quando uma mudança significativa é feita.
Abraços.

{ Guilherme Hink } on: 7 de julho de 2016 22:48 disse...

Bonito texto, Gabi. Sensação boa essa de se conectar, né!?

{ Guilherme Hink } on: 7 de julho de 2016 22:49 disse...

Bonito texto, Gabi. Sensação boa essa de se conectar, né!?

{ Gabriela Campagnucci } on: 7 de julho de 2016 23:55 disse...

+qd+!

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