as pessoas simplesmente se esvaziam

/ terça-feira, agosto 27, 2013 /
Em 1969, o editor John Martin ofereceu a Charles Bukowski US$100 a cada mês e todo mês de sua vida com uma condição: que ele saísse de seu emprego numa agência do correio se tornasse um escritor. Bukowski, com 49 anos de idade, o fez e em 1971 Martin publicou seu primeiro livro, Post Office pela editora de Martin, a Black Sparrow Press.

Quinze anos depois, Bukowski escreveu a seguinte carta para Martin sobre sua alegria por ter escapado de seu emprego.

12 de agosto de 1986
Olá, John:
Obrigado pela carta. Eu não acho que machuca, às vezes, lembrar como você apareceu. Você conhece os lugares de onde vim. Mesmo as pessoas que tentam escrever sobre isso ou fazer filmes sobre isso, não conseguem entender direito. Eles chamam de ’9 às 5′. Nunca é das 9 às 5, não há paradas para refeições nesses lugares, na verdade, em muitos deles, para se manter o trabalho, você nem almoça. E, tem também as horas extras que os livros nunca contabilizam da forma certa e se você reclamar, há sempre outro sacana pra pegar o seu lugar. Você conhece meu ditado antigo: “A escravidão nunca foi abolida, ela apenas foi estendida para incluir todas as cores”.
E, o que machuca é a consistente diminuição de humanidade daqueles que lutam para manter seus trabalhos que não querem mas tem medo que as alternativas sejam piores. As pessoas simplesmente se esvaziam. São corpos cheios de medo e mentes obedientes. A cor deixa seus olhos. A voz se torna feia. E o corpo. O cabelo. As unhas. Os sapatos. Tudo fica. Como um jovem, eu nunca acreditei que as pessoas pudessem deixar suas vidas serem levadas a essa condição. Como um velho homem, eu ainda não posso acreditar. Por que eles fazem isso? Sexo? TV? Um carro ou pagamentos mensais? Ou crianças? Seus filhos vão fazer o mesmo que eles fizeram?
Antigamente, quando eu era jovem, eu ia de emprego em emprego e fui idiota o suficiente para às vezes falar para meus companheiros de trabalho: “Ei, o chefe pode vir aqui a qualquer momento e nos mandar embora, assim, você não percebe isso?”Eles então, só olhavam pra mim. Eu estava falando algo que eles não queriam que entrasse em suas mentes.
Agora, na indústria, há demissões em massa. São demitidos centenas e milhares e suas faces são assustadas: 
“Eu dei 35 anos…” 
“Isso não está certo…” 
“Eu não sei o que fazer…” 
Eles nunca pagam os escravos o suficiente para serem livres, apenas o suficiente para ficarem vivos e voltarem para o trabalho. Eu posso ver isso. Por que eles não conseguem? Eu percebi que um banco de praça era tão bom quanto ou ficar em um bar, bom igual. Por que não chegar lá antes de me colocarem lá? Por que esperar? 
Eu me lembro uma vez, enquanto trabalhava como um empacotador em uma empresa de luminárias, um dos empacotadores falou: “Eu nunca vou ser livre!” Um dos chefes estava passando (seu nome era Morrie) e deixou escapar uma deliciosa risada, apreciando o fato de seu subordinado estar preso por toda vida. 
Então, a sorte que eu tive de sair desses lugares, não importa quanto tempo tenha tomado, me deu um tipo de alegria, um sentimento de milagre. Eu agora escrevo de uma mente velha e de um velho corpo, de um tempo onde a maioria dos homens nem pensa em chegar, mas já que comecei tão tarde, eu devo pra mim mesmo continuar e, quando as palavras começarem a faltar e eu precisar de ajuda pra subir uma escada e não possa mais distinguir um pássaro de um clip de papel, mesmo assim, eu ainda sinto que algo em mim irá lembrar (não importa quão longe eu vá) como eu escapei do assassinato, da trapalhada e do trabalho duro, até pelo menos, chegar a ter uma maneira generosa de morrer. 
Não haver deixado perder totalmente a vida de alguém parece ser uma realização valiosa, pelo menos pra mim.


Seu garoto,
Hank

A gente sempre tem alguma coisa engasgada, né?

ilustrações icônicas

/ segunda-feira, agosto 19, 2013 /
Um pouco similar com o que fez Candice Milon (postei sobre ela e seu trabalho lá no Publicitário Pobre), o designer Fred Birchal criou uma série de ilustrações que, através de ilustrações de silhuetas e figurinos característicos, é possível identificar alguns personagens de clássicos do cinema e séries de TV.

Com uma pitada minimalista, o desing aprimora tanto as formas quanto as cores para tornar a ilustração legível.


ARTIST'S BIO
Frederico Santana Birchal

"Gosto de tudo o que é criativo, desde as mais simples formas do Futurismo dos anos 60, às mais complexas e detalhadas obras do Renascimento. Um tanto convicto de minhas ideias, acredito que um bom design pode mudar o rumo de muita coisa."

Entre em contato com o artista: fredbirchal@gmail.com
Ou pelo site: www.fredbirchal.daportfolio.com

o que é amar (por Bakunin)

/ domingo, agosto 18, 2013 /
Tive acesso ao assunto desta postagem através de um compartilhamento no Facebook (ah, o Facebook...) e senti a necessidade de compartilhar aqui, em meu pequeno grande espaço.

NOTA BIOGRÁFICA: Mikhail Bakunin (1814-1876), de origem aristocrática, que percorreu toda a Europa como ativista revolucionário e exilado político, foi um dos fundadores da Associação Internacional dos Trabalhadores, também conhecida por I Internacional, sendo uma das figuras mais importantes do movimento e do pensamento anarquista. Da sua bibliografia destaca-se o livro Deus e o Estado.

A carta reproduzida abaixo tem data de 29 de Março de 1845 e foi enviada de Paris por Bakunin ao seu irmão Paulo.



"Continuo a ser eu próprio, como antes, inimigo declarado da realidade existente, só que com uma diferença: eu parei de ser um teórico, eu venci, enfim, em mim, a metafísica e a filosofia, e entreguei-se inteiramente, com toda a minha alma, ao mundo prático, ao mundo dos factos reais.

Acredite em mim, amigo, a vida é bela; agora tenho pleno direito de dizer isto porque parei há muito tempo de olhá-la através das construções teóricas e de conhecê-la somente em fantasia, pois experimentei efetivamente muitas das suas amarguras, sofri muito e entreguei-me frequentemente ao desespero.

Eu amo, Paulo, amo apaixonadamente: não sei se posso ser amado como gostaria que fosse, porém não me desespero; sei, pelo menos, que tem muito simpatia por mim; devo e quero merecer o amor daquela a quem amo, amando-a religiosamente, ou seja, ativamente; ela está submetida à mais terrível e à mais infame escravidão e devo libertá-la combatendo os seus opressores e incendiando no seu coração o sentimento da sua própria dignidade, suscitando nela o amor e a necessidade da liberdade, os instintos da rebeldia e da independência, fazendo-lhe recordar a sensação da sua força e dos seus direitos.

Amar é querer a liberdade, a completa independência do outro; o primeiro ato do verdadeiro amor é a emancipação completa do objeto que se ama; não se pode amar verdadeiramente a não ser alguém perfeitamente livre, independente, não só de todos os demais, mas também e, sobretudo, daquele de quem é amado e a quem ama.

Esta é a profissão da minha fé política, social e religiosa, aqui está o sentido íntimo, não só dos meus atos e das minhas tendências políticas, mas também, tanto quanto me é possível, da minha existência particular e individual; porque o tempo em que poderiam ser separados estes dois gêneros de ação está muito longe da gente; agora o homem quer a liberdade em todas as acepções e em todas as aplicações desta palavra, ou então não a quer de modo algum; querer a dependência daquele a quem se ama é amar uma coisa e não um ser humano, porque o que distingue o ser humano das coisas é a liberdade; e se o amor implicar também a dependência, é o mais perigoso e infame do mundo porque é então uma fonte inesgotável de escravidão e de embrutecimento para toda a humanidade.

Tudo que emancipa os homens, tudo que, ao fazê-los voltar a si mesmos, suscita neles o princípio da sua vida própria, da sua atividade original e realmente independente, tudo o que lhes dá força para serem eles mesmos, é verdade; tudo o resto é falso, liberticida, absurdo. Emancipar o homem, esta é a única influência legítima e bem-feitora.

Abaixo todos os dogmas religiosos e filosóficos – que não são mais que mentiras; a verdade não é uma teoria, mas sim um facto; a vida é a comunidade de homens livres e independentes, é a santa unidade do amor que brota das profundidades misteriosas e infinitas da liberdade individual."

sorrisos que inspiram

/ quinta-feira, agosto 08, 2013 /
"The photo defined by the absence of limitations between observation and action (where bodies are purified in ways to forever contrast and harmonize with timeless rhythm) hints at an environment that can both oppress or release. It catches the invisible, traps the moment and in doing so reveals an unconditional and compassionate love for the world seeking only to break the limitation of life and art...", trata-se de uma bela descrição do trabalho que faz Renan Rosa, fotógrafo que encanta e desencanta olhares e sorrisos por todos os lugares do mundo.


Renan já passou por mais de 50 países, durante 12 anos de viagens pelo mundo. O fotógrafo já teve seu trabalho reconhecido em diversos concursos, participou de projetos de exposição - ao lado da produtora cultural Aline Stümer -, teve fotografias estampando revistas renomeadas, além de se destacar como vencedor da Foto do Mês na revista National Geographic Brasil, em 2011.





É realmente incrível o modo com as fotos são espontâneas e delicadas. Um belo trabalho, reproduzido por uma sensibilidade singular, carregada de profissionalismo e naturalidade. Renan consegue capturar e materializar, através de suas lentes, momentos únicos que serão eternizados pelas experiências, histórias e diferenças que cada fotografia é capaz de transmitir.

Todo e qualquer preconceito é eliminado diante de tanta cor e emoção.








Gratidão pelos sorrisos. Gratidão pela simplicidade da vida. Gratidão à Renan Rosa, pelas lindíssimas imagens. E, para conhecer um pouco mais sobre o seu trabalho e história de vida, acesso sua página clicando aqui.

Agradecimentos: Título do post por Petit Gabi; fotos cedidas ao Obvious, por Renan Rosa.