continuecurioso.cc

/ terça-feira, maio 28, 2013 /
continuecurioso é uma web série documental que retrata experiências de pessoas que se desprenderam de um jeito convencional de levar a vida.

Idealizado em meados de agosto de 2012, as administradoras da página - Cristiane Schmidt e Juliana Mendonça - tiveram a ideia de entrevistar curiosos. Em cada episódio, você vai conhecendo pessoas que fizeram descobertas no trabalho e, principalmente, de si mesmas.

A próxima história é da Cíntia Dumiens, que acredita que comer deve ser um ato livre de pudores. Por 3 anos, a chef de cozinha amadureceu a ideia de que comida pronta pode sim ser objeto de desejo. Assim, abriu a Amüse Food Store, uma boutique gastronômica que inovou no segmento de rotisserias através de posicionamento, produto e design arrojados. 



Dá pra assistir a prévia do próximo post clicando aquiE sinta um pouco desse gostinho de fazer o que realmente gosta, se é que você me entende.

professor colombiano cria dicionário de verbetes emocionante

/ quarta-feira, maio 22, 2013 /
Das notícias que viraram destaque essa semana, na internet, essa foi a que eu mais gostei.

Conforme informado no título da postagem, um professor colombiano - Javier Naranjo - passou cerca de dez anos coletando definições feitas pelos seus alunos, e as publicou no livro "Casa das Estrelas: O Universo Contado Pelas Crianças", uma obra que surpreendeu à todos, e que tornou-se destaque da Feira Internacional do Livro de Bogotá (embora o livro tenha sido publicado pela primeira vez em 1999, na Colômbia; e reeditado esse ano).

Os verbetes são de uma delicadeza imensa, um ponto de vista totalmente filosófico e nostálgico. Através dessas definições simples e poéticas, nós percebemos o quanto esquecemos de toda essa sensibilidade e esse ponto de vista lúdico. É lindo, pois eles têm uma lógica diferente, outra maneira de habitar a realidade e de nos revelar muitas coisas que perdemos com o passar do tempo.

O professor conta (em várias entrevistas disponíveis aí, na internet) que foram cerca de oito à dez anos compilando informações, até chegar em quase 500 definições e um total de 133 palavras diferentes.


  • Adulto: Pessoa que em toda coisa que fala, fala primeiro dela mesma (Andrés Felipe Bedoya, 8 anos)
  • Ancião: É um homem que fica sentado o dia todo (Maryluz Arbeláez, 9 anos)
  • Água: Transparência que se pode tomar (Tatiana Ramírez, 7 anos)
  • Branco: O branco é uma cor que não pinta (Jonathan Ramírez, 11 anos)
  • Camponês: um camponês não tem casa, nem dinheiro. Somente seus filhos (Luis Alberto Ortiz, 8 anos)
  • Céu: De onde sai o dia (Duván Arnulfo Arango, 8 anos)
  • Colômbia: É uma partida de futebol (Diego Giraldo, 8 anos)
  • Dinheiro: Coisa de interesse para os outros com a qual se faz amigos e, sem ela, se faz inimigos (Ana María Noreña, 12 anos)
  • Deus: É o amor com cabelo grande e poderes (Ana Milena Hurtado, 5 anos)
  • Escuridão: É como o frescor da noite (Ana Cristina Henao, 8 anos)
  • Guerra: Gente que se mata por um pedaço de terra ou de paz (Juan Carlos Mejía, 11 anos)
  • Inveja: Atirar pedras nos amigos (Alejandro Tobón, 7 anos)
  • Igreja: Onde a pessoa vai perdoar Deus (Natalia Bueno, 7 anos)
  • Lua: É o que nos dá a noite (Leidy Johanna García, 8 anos)
  • Mãe: Mãe entende e depois vai dormir (Juan Alzate, 6 anos)
  • Paz: Quando a pessoa se perdoa (Juan Camilo Hurtado, 8 anos)
  • Sexo: É uma pessoa que se beija em cima da outra (Luisa Pates, 8 anos)
  • Solidão: Tristeza que dá na pessoa às vezes (Iván Darío López, 10 anos)
  • Tempo: Coisa que passa para lembrar (Jorge Armando, 8 anos)
  • Universo: Casa das estrelas (Carlos Gómez, 12 anos)
  • Violência: Parte ruim da paz (Sara Martínez, 7 anos)
Fonte: livro Casa das estrelas: o universo contado pelas crianças, de Javier Naranjo.

Ana Paula fora do padrão

/ domingo, maio 19, 2013 /
Uma das jornalistas mais respeitadas do país, Ana Paula Padrão deixou a TV para se arriscar em um novo negócio, dedicado a decifrar a relação entre as mulheres e o trabalho: "Metade das decisões que tomei foi para garantir que teria vida pessoal fora da minha carreira". 


Quando ela pediu demissão da Globo, de um cargo cobiçado e cheio de glamour, não faltou quem a chamasse de doida. Quando, ao sair da Globo em 2005, explicou que estava indo cuidar da vida, tentar ter filhos, não faltou quem desdenhasse. Quando aceitou o convite do SBT para formar um novo departamento de jornalismo, disseram que era um plano B, que tinha se arrependido de sair do Jornal da Globo. Depois, ao voltar para a bancada na TV Record, pensaram: “Ah, colocou a cabeça no lugar, voltou à base”. Mas Ana Paula Padrão tinha um plano. Ficaria ali por quatro anos e iria cuidar de um sonho antigo: colocar de pé o projeto de uma plataforma especializada na mulher brasileira, uma empresa que faria detalhado inventário dessa mulher em todas as classes sociais e, depois, explicaria às grandes corporações o que elas precisariam fazer para se adequar à nova força produtiva do país, composta de mulheres que não se sujeitam mais à gestão masculinizada. Outra vez, disseram que ela estava ficando maluca. Mas, se o que separa o maluco do gênio é o sucesso, Ana Paula já cruzou a fronteira há alguns anos.


Criada por um pai advogado e intelectual de esquerda e por uma mãe que poderia ter feito carreira como radialista, mas optou por cuidar da família, ela nasceu e cresceu em Brasília, de onde saiu em 1996, para morar em Londres como correspondente da Globo. De lá, foi para Nova York, e três anos depois voltou ao Brasil, mais exatamente para São Paulo, cidade que a assustou e, a princípio, deprimiu. Mas não havia tempo para mi-mi-mi: tinha sido trazida de volta para um dos cargos jornalísticos mais cobiçados do Brasil: editar e ancorar o Jornal da Globo. De lá, claro, uma mulher só deve sair quando é retirada. Mas esse não seria o caso dela.

Em entrevista com a Revista TPM, Ana Paula Padrão falou sobre trabalho, demissões, casamento, filhos e o futuro da mulher no Brasil. E, tratando-se de uma excelente profissional, que muito admiro, vou destacar - abaixo - alguns trechos interessantes da entrevista (que você pode conferir na íntegra, clicando aqui).
Em destaque, está o seu novo projeto fora da bancada, veja:

Precisou de coragem para deixar a Globo? [Risos] As pessoas me diziam: “Nossa, mas sair da Globo?”. Gente, eu adoro a Globo, é uma grande escola, uma empresa que não é machista, que trata bem os funcionários. Tenho um monte de coisa legal para falar da Globo, mas aquele não era o meu momento. Eu estava superinfeliz, detestava aquele horário, me sentia isolada do mundo e, com 30 e tantos anos, eu tinha achado a pessoa da minha vida e não me encontrava mais com o cara. A gente se falava por bilhetes porque eu chegava tarde e ele saía cedo. Aí vieram dois anos tentando engravidar, ele me dava as injeções e eu tinha que acordar com ele para ele me dar as injeções. Comecei a dormir mal, estava num grau de desgaste… e eu ia dizendo: “Gente, não tô aguentando, preciso sair, preciso sair”. Mas entendo que a TV e o público achem estranho que você priorize uma coisa pessoal e que isso seja mais importante do que o glamour da profissão. Sei que é difícil de entender, mas desculpa aí, hein [risos]. Eu não podia continuar daquele jeito.
Mas aí você voltou para a bancada na Record. Há quatro anos, quando saí do SBT, tinha quatro convites para voltar para a bancada. Era o mercado me dizendo: “Só serve se for na bancada”. E eu pensei: “Preciso fazer outra coisa ou vou envelhecer numa bancada”. Precisava fazer com que o mercado acreditasse em mim para fazer uma coisa diferente. A gente vira escrava do sucesso. As pessoas gostam de mim na bancada, o mercado gosta de mim na bancada, sou um bom produto na bancada, a audiência confia em mim e isso é muito bom para empresas patrocinadoras do telejornal, porque atraio bons patrocinadores. É bom para a TV, para os patrocinadores e para a audiência. Mas e eu?

Como foi a decisão? Pensei: “Vou topar mais quatro anos e vou colocar minha empresa de pé”. Minha primeira empresa é uma produtora, ela tá bem no mercado, anda sozinha, existe há seis anos e não depende da minha imagem. Mas a Tempo de Mulher é calcada na minha imagem, na minha relação com mulheres e em tudo o que estudei sobre mulheres. Então assinei [com a Record] dizendo: “Estou assinando por quatro anos sem extensão”. E eles: “Ah, lá na frente a gente convence você”. E eu: “Gente, eu não vou ficar”. Ninguém nunca acredita [risos].

A Tempo de Mulher orienta o mercado corporativo a respeito da nova mulher no trabalho? É uma das coisas que fazemos. As corporações no Brasil estão tendo que discutir a questão do gênero, não é mais uma opção, é necessidade porque não conseguem mais recrutar e reter bons talentos femininos. Na maioria dos casos o ambiente de trabalho não é favorável à mulher. Temos um dos maiores índices de empreendedorismo feminino do mundo porque a mulher brasileira não se sujeita mais a empresas com gestões masculinizadas. Dou instrumentos para essa discussão, converso com a mulher através do portal e com as empresas nos eventos que promovo.

Você é essa mulher? Sou uma legítima representante da geração ombreiras, a dos anos 80, de mulheres de blazers enormes, cabelo curto, gritando, forçando a voz para um tom mais grave para se fazer respeitar. Essa mulher não existe mais. Metade das decisões que tomei na vida foi para garantir que teria vida pessoal fora da minha carreira. As mulheres que abriram mão disso e estão hoje em superpostos corporativos na maioria [dos casos] não são felizes. A mulher tem um monte de universos dentro dela e ela tem que se sentir feliz em todos eles. Tem que olhar no espelho e achar que tá legal, tem que achar que vive uma relação legal, que tem tempo para os amigos quando os amigos precisam dela, que é uma boa mãe, que tem uma casa organizada. As empresas precisam entender que a gestão feminina vai ser sempre diferente da gestão masculina. Mas sozinhas não vamos conseguir fazer essa mudança, precisamos da ajuda deles.

"As empresas precisam entender que a gestão feminina é diferente da masculina"


Como? Primeiro, sendo mães de homens criados para dividir tarefas, e sendo para as empresas não uma mulher masculinizada, mas uma mulher que entrega share grande de produtividade e tem a vida equilibrada. Vejo ainda a mulher que sente falta de um apoio maior da empresa para ser essa mulher. E vejo a mulher que está tentando resgatar coisas que deixou para trás quando precisou conquistar o mercado de trabalho sem ter um modelo feminino para copiar.
Como você faz isso? No próximo evento, por exemplo, vamos discutir “mulher, trabalho e maternidade”, “doenças femininas no trabalho” e teremos painéis com homens que optaram por trabalhar menos porque a mulher estava num momento melhor da carreira. Muitas coisas do universo corporativo precisam ser discutidas. Um dos grandes mestres em gerenciamento do mundo, o canadense Henry Mintzberg, disse: “A cabeça do homem é compartimentada em caixinhas: caixinha do trabalho, do chope com amigos, do futebol, dos filhos; a cabeça da mulher não tem um compartimento ‘felicidade’ e outro ‘trabalho’”. O trabalho tem que gerar felicidade. Se as empresas tivessem noção de como a mulher decide coisas, elas só fariam pesquisa com mulheres.
É um manifesto feminista? Muito pelo contrário. O peso sobre o homem dos anos 50 era insuportável. Era impossível levar o trabalho para casa porque ele tinha que ser o exemplo do sucesso.