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/ quinta-feira, janeiro 31, 2013 /
As aparências estão caindo, se trata de exterminar o lado ruim das falsas aparências que encobrem os conflitos, para enaltecer o lado benéfico, que é a verdadeira beleza que se esconde por trás das sutilezas e das pequenas coisas que deixamos esquecidas por estarmos absorvidos pelo comum, pelo cotidiano, pelas coisas sem sentido que passam a reinar na vida. Pior do que qualquer coisa: começamos a chamar isto de “realidade” e aceitamos isto com fato natural da vida – aceitar a vida pela metade, motivado apenas pelo simples desejo de segurança e pelos medos, de errar, de sofrer, etc. Causa-me arrepios quando ouço a expressão “buscar sua metade da laranja” quando se fala da busca de um relacionamento.

As pessoas estão imersas em solidão porque estamos vivendo numa sociedade que nega a coisa mais natural do ser humano, e que sempre insisto: somos seres sociais, chegamos até aqui numa combinação desta capacidade de agir e se articular em grupo e com nossa extrema inteligência e habilidade para manipulação de precisão. Quando deixamos de viver desta forma e passamos a agir de maneira individualista, fechada, ao mesmo tempo em que tornamos nossa sociedade mais competitiva e violenta, por outro lado passamos a sofrer mais com a solidão, começamos a buscar relacionamentos de compensação, que nos tirem deste estado, e aí todos os relacionamentos entram em crise, pois logo se descobre que o outro (uma pessoa apenas) não será capaz de nos livrar das verdadeiras fontes de nossas angústias, ninguém pode ser usado como um “oásis”.
Quando voltamos a nos articular em grupos saudáveis, quando redescobrimos que podemos agir em grupo, estabelecer redes que nos apoiam, amigos que vibram nas mesmas ideias e aspirações, começamos a acordar e perceber que podemos viver de forma mais calorosa no mundo, de forma integrada, quente, segura. Então não nos sentiremos mais tão sozinhos. Daí, um relacionamento vem como uma complementação, uma consequência natural deste processo de reintegração à vida, e não como uma salvação de uma vida estéril e sem sentido, como costumamos fazer dentro desta sociedade doentia, que torna todos os aspectos da vida igualmente doentios.

E melhor que tudo: descobrimos que as fontes de amor vêm de todos os lados, em fluxos contínuos, abundantes, inesgotáveis, que não precisamos fazer de uma única pessoa um escravo de nossas projeções de carência e desespero existencial. E vice-versa. Relacionamentos podem ser ricos, desde que estejamos abertos para aceitar o tipo de riqueza que cada um tem, antes de tentar moldá-lo aos nossos desejos, como uma lâmpada de Aladim. Quem nunca teve este desejo egóico, afinal? 
Estes aspectos são como a maresia que corrói o belo verniz da falsidade de nossos “sim” ditos da boca para fora para agradar, o tropeço na língua das belas coisas que dizemos apenas para sermos aceitos, onde muitos chistes e atos falhos poderão nos colocar em momentos complicados. Claro, estamos vendo como este verniz está sendo corroído na sociedade, nos protestos, nas convulsões sociais causadas pelas mentiras que estão sendo contadas há tempos, pelos governos “fantoches”, etc. Mas não cometamos mais o mesmo erro: todas as insurreições na história, de alguma maneira, descambaram em regimes mais autoritários, desiguais, em algum momento à frente. Insisto: a sociedade que queremos nasce dentro de nós e de nossas atitudes nutridas no cotidiano, na nossa família (o grande tubo de ensaio), no trabalho, com os amigos, enfim, como faço das minhas palavras e ideias o verdadeiro “sonho em movimento”. Quem consegue viver assim, não precisa viver mais de máscaras.

Como diria o cortante Mestre Budista Dzongsar Khyentse Rinpoche, se conseguimos viver sem máscaras, sem medo, vivendo presente e intensamente cada momento, indo para onde quiser, criando livremente sobre o mundo, colaborando consigo mesmo e para o bem estar de todos, que tipo de iluminação podemos desejar a mais? Então, o outro deixa de ser uma salvação, e passa a ser um outro “eu”.

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